quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Roteiro Vale do Reno

Vale do Reno – A Alemanha dos contos de fadas


Uma das paisagens mais encantadoras da Alemanha está nos 65 km que vão de Mainz a Koblenz, nas margens do Rio Reno, um roteiro recheado de vilarejos medievais, castelos e vinícolas. 


Por Regina Cazzamatta (Revista Viaje Mais, Outubro 2016)



O Rio Reno nasce nos Alpes suíços, passa pela fronteira com a França, atravessa a Áustria e morre em Roterdã, na Holanda. Talvez não exista nenhum outro rio no mundo tão bem localizado assim. Mas é na Alemanha que o Reno revela seu cenário mais inspirador, onde corre tortuoso em meio a montanhas repletas de parreiras, tendo às margens numerosos vilarejos medievais, castelos e casinhas típicas alemãs, daquelas com floreiras nas janelas. Um pedaço dessa região, conhecida como Vale do Reno, é especialmente cinematográfica: os 65 km que vão de Mainz a Koblenz, rota considerada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

O Reno é o rio com maior quantidade de castelos ao longo de suas águas. Tanto que o trecho entre Mainz e Koblenz é conhecido como Rota dos Castelos. São cerca de 40 deles, ora erguidos no alto de montanhas, ora nas margens do rio. Os primeiros foram construídos nos tempos do Império Romano. Na Idade Média, as muralhas de pedras frias e insalubres desses castelos passaram a abrigar postos alfandegários com o objetivo de cobrar impostos dos comerciantes que navegavam pelo rio. Nesse cenário digno de filme de capa e espada, brotam também um sem-número de lendas e histórias de contos de fada. A mais famosa dá conta de Loreley, uma linda donzela de cabelos loiros que encantava os navegantes com um canto mágico. A beleza da mulher e a perfeição de sua voz hipnotizavam os capitães a tal ponto que se descuidavam do controle das embarcações e naufragavam. 
Além da belíssima e cheia de mistérios, a Rota dos Castelos é perfeita do ponto de vista da locomoção e da praticidade, já que fica bem próxima a Frankfurt, aonde chegam voos diretos e diários do Brasil. Da estação ferroviária de Frankfurt, anexa ao aeroporto, partem trens que levam apenas meia hora para chegar até Mainz. Ou seja, você embarca em São Paulo ou no Rio de Janeiro e, em pouco mais de doze horas, já dá de cara com as paisagens e lendas do Reno. 
O percurso ao longo do rio também é descomplicado. Pode ser feito de carro, trem ou barco, já que há rodovias e uma ferrovia que margeia o rio. A forma mais tradicional é viajar nos barcos da companhia Köln-Düsseldorfer (www.k-d.de), que funcionam como transporte público, parando de cidade em cidade. Operam no sistema hop on/ hop off, no qual o passageiro pode descer onde quiser e, no mesmo dia, reembarcar com o mesmo tíquete. Os barcos têm ótima infraestrutura: três andares, deque para admirar a vista e restaurantes que oferecem até carta de vinhos. O bilhete custa 21 euros ao dia. 
Como as paradas dos barcos ficam sempre próximas às estações de trem, geralmente, a poucos minutos de caminhada, também é possível fazer a viagem mesclando o meio de transporte, o que é bem legal. Os trens oferecem a vantagem da economia e da rapidez para pular de uma cidade para outra. É bom reservar, pelo menos, três dias inteiros para fazer o trajeto com calma. Se tiver mais tempo, pode ainda esticar o roteiro até Colônia (veja abaixo), o que dá um total de 120 km. Uma semana é o suficiente para voltar com a sensação de que conheceu razoavelmente bem toda a região. A questão é escolher apenas onde se hospedar, já que são dezenas de cidades pelo caminho, a grande maioria minúsculos vilarejos. Se você gosta de um pouco mais de agito, considere lugares maiores como Mainz, Rüdesheim, Koblenz e, no caso do roteiro completão, Colônia.  

Mainz

Para quem chega a partir de Frankfurt o caminho natural é iniciar o roteiro por Mainz, capital do estado da Renânia-Palatinado, com cerca de 190 mil habitantes. No centro histórico da cidade, há um incontável número de igrejas e para encontrá-las basta olhar para os lados, quase toda esquina tem uma. A mais monumental é a de Santo Estevão, construída em pedras de arenito avermelhado, toda pomposa à beira do rio. Em seu interior, há vitrais assinados pelo pintor russo Marc Chagall. 
Também chama atenção a Catedral “Dom”, que pode ser avistada de quase todos os pontos de Mainz e é comparada à basílica de São Pedro, em Roma. A semelhança não é mera coincidência. A ideia do arcebispo Willigis quando a construiu, em 1909, era torná-la parecida ao templo católico romano. No interior, há uma sala com exposição de peças sacras preciosas, joias que foram usadas por arcebispos da região e esculturas do século 12.
O filho mais ilustre de Mainz é Johannes Gutenberg, o inventor da tipografia e da imprensa. A cidade dedicou a ele um museu, o Museu de Gutenberg, cuja peça suprassumo exposta é a primeira bíblia impressa do mundo, de 1455. Para os apaixonados por livros, a mostra é fascinante. Há escritos chineses do ano 600, manuscritos originais de Matinho Lutero, o pai da reforma protestante na Alemanha, além de máquinas de tipografia pré-Gutenberg usadas para impressão em países orientais.
 Depois de tantos passeios culturais, é gostoso ver o movimento na Marktplatz, a praça central do centro histórico, antes de tomar o rumo da rua Augustiner, para ver vitrines nas lojas instaladas em belos casarões enxaimel de cinco andares. Para o pit stop, siga à taberna Eisgrub-Bräu para brindar sua chegada com um canecão de cerveja "helles" (clara) ou com o bierturm, a torre de chope, de três litros. 

O Vinho Branco do Reno 

O entono dos vilarejos e castelos no Vale do Reno é tomado de parreirais. A tradição da viticultura na região é antiga, foi trazida pelos romanos há cerca de dois mil anos. Atualmente, há cerca de 165 vinícolas nos 120 km entre Mainz e Colônia, sendo que 50 delas são abertas a visitação turística. Boa parte da produção é de Riesling, o “rei” dos vinhos brancos, de sabor leve e frutado. A Alemanha é a maior produtora mundial desse tipo de vinho, que ali tem selo de denominação de origem: O Rheinriesling, ou Riesling do Reno. Outro vinho branco famoso por essas bandas é o Müller-Thürgau, originário do cruzamento genético das uvas Riesling e Gutedel, que resultou em um vinho equilibrado, com tons de noz moscada.   
Se quiser conhecer um vinícola considere a Weinkeller Schwaab, que fica na montanha Marienberg, à beira do rio Mosela, nas proximidades de Koblenz. Ou então a Weingut Bastian, uma vinícola com 300 anos de tradição, na pequena vila de Bacharach. Ambas oferecem tours pelas cavas e parreiras, além de almoços harmonizados com vinhos da casa. 

Bingen

Mainz é uma ótima dose de cultura e história, mas é apenas o aperitivo da viagem, pois é na próxima parada, em Bingen, onde começa e área considerada Patrimônio Cultural da Humanidade. A cidade, na confluência dos rios Reno e Nahe, tem um agradável calçadão à beira da água, com gramados floridos, biergartens (cervejarias com mesas ao ar livre) e um museu, o Strom, que conta a história da vida de Hildegarda de Bingen (1098-1179), uma mulher cheia de talentos que, em plena Idade Média, lutou pelos direitos das mulheres. Era uma abadessa beneditina e também escritora, poeta, compositora, botânica e curandeira. Hildegarda escreveu diversos livros, de teologia à botânica. Um dos mais famosos é o catálogo de plantas e ervas medicinais, escrito em 1158. Suas descobertas sobre o lúpulo ajudaram a invenção da cerveja. 
Ainda nas margens de Bingen, avista-se a Torre dos Ratos (Mäüseturm), em uma pequena ilha no meio do rio. Apesar de ser uma torre de observação, a construção transformou-se num ícone do Reno. Inicialmente, ela foi erguida pelo arcebispo de Mainz, Hatto II (968-970), para recolher impostos alfandegários dos mercadores. Conta-se, em mais uma das lendas deste vale encantado, que os súditos do bispo, revoltados com a avareza e a admiração opressiva do clérigo, o jogaram da torre para ser devorado vivo pelos ratos. Fato ou ficção, o que se sabe com certeza é que a torre ainda serviria como farol de sinalização para os navegadores do Reno até 1975.

Rüdesheim

De Bingen, avista-se no topo da montanha, do outro lado do rio, um monumento chamado Niederwald, marco da vitória alemã na Guerra Franco-Prussiana em 1871. Os franceses reivindicaram o Reno como fronteira oriental do país, mas de nada adiantou. Vale a pena ir até lá, pois a vista desde o monumento, a 225 metros acima do rio, é uma das mais belas do Reno. Para isso, basta cruzar o rio até Rüdesheim, de onde parte um teleférico de 1.400 metros de extensão, que passa sobre os vinhedos da encosta, até o monumento. 
Rüdesheim é uma das mais belas cidades do roteiro e a mais visitada também. É famosa pela Drosselgasse, uma viela estreita, exclusiva para pedestres, cheias de cafés e restaurantes que vivem lotados. Não faltam também lojas de suvenir e produtos típicos alemães, como relógios-cuco e bonecos quebra-nozes. É o Reno na sua versão mais turística.
Há três castelos para visitar na cidade: Boosenburg, Vorderburg e Brömserburg. Esse último, erguido em 1044, não fica na montanha, mas na beira do rio, e lá funciona um interessante museu de vinho, com exposição de parafernálias usadas para produzir e beber vinho desde os tempos dos romanos.

Bacharach e Oberwesel 

Apenas 15 km seguindo o rio está Bacharach, um vilarejo medieval muito charmoso, escondido atrás de uma muralha do século 14, com casas em estilo enxaimel ao longo de sua rua principal, a Oberstrasse. Os bares estão todos ali. Basta escolher um, pedir uma taça de vinho Riesling, típico da região e entrar no clima. Para admirar a cidade de outros ângulos, faça o passeio por cima da muralha, dando a volta em todo o cetro histórico. 
Um muro medieval também contorna o núcleo antigo da vizinha Oberwesel, que todo mês de abril promove o concurso da Bruxa do Vinho, no qual uma linda moça é escolhida para representar a bruxa, que segundo a lenda, protege os vinhedos. A vencedora desse concurso com 70 anos de tradição tem sua foto exposta no centro de cultura da cidade, onde funciona um curioso museu que conta a história da região, incluindo o episódio em que o Reno congelou no inverno de 1963. 

Em Oberwesel, você poderá viver um dia de rei. Para isso, basta hospedar-se no Castelo Schönburg, que foi transformado em um luxuoso hotel em 1957. Apesar de enorme por fora, são apenas 24 quartos. E que quartos... A decoração faz qualquer um se sentir na era medieval. 
Foi nesse castelo que surgiu a lenda das “Sete Virgens”, que fala sobre sete lindas irmãs que lá moravam. Ricos cavaleiros vinham constantemente à nobre residência pedir a mão das moças ao pai delas, o conde de Schönburg. Mas, as exigentes donzelas sempre encontravam algum defeito nos pretendentes: gordos demais, baixos demais, feios demais... Para pôr um fim no mi-mi-mi das jovens, o pai convidou diversos cavaleiros de uma só vez para que as filhas, enfim, escolhessem um marido. Quando os convidados chegaram, as adolescentes evaporaram como um passe de mágica. De cima do burgo, o pai desolado viu as garotas fugindo de barco pelo rio e as amaldiçoou: “queria que todas vocês se transformassem em rochas”. O barco virou e as setes virgens afundaram nas águas do Reno. No verão, quando o nível das águas está mais baixo, avistam-se sete rochas no meio do rio: são as “Sete Virgens”. 

St. Goarhausen

Quando uma escarpa rochosa chamar sua atenção é sinal de que você está chegando à pedra de Loreley, a mítica donzela loira que enfeitiçava os capitães dos barcos com seu canto hipnotizante, a ponto de fazê-los colidir e naufragar. Na margem do rio, há uma estátua da voluptuosa Loreley. Vale dizer que nesse ponto o rio estreita-se bastante, tem apenas 113 metros de largura, fato que certamente propiciava maus bocados às embarcações no passado. 
Logo após a rocha de Loreley está a encantadora St. Goar, que poucos visitantes deixam de ir conhecer. A cidade abriga as ruínas do Castelo de Rheinfels, de 1245, que foi um dos mais poderosos do Reno, repleto de túneis e galerias subterrâneas. Do centro da cidade, leva-se 20 minutos caminhando até ele, por um belo caminho rodeado de parreiras. Depois da visita, não deixe de bebericar algo no café do burgo, com vista para o vale do rio. 
No fim da noite, St. Goar rende um passeio pelas estreitas e pitorescas ruas do centro antigo. É o melhor jeito de continuar com o clima carpe diem antes de encarar uma degustação de vinhos em um dos produtores locais. Para acompanhar o vinho, prove a Flammkuchen, uma massa bem fininha, preparada assada com creme de leite, cebolas e bacon. 

Koblenz

Aqui está o clímax da jornada: a charmosa cidade de Koblenz, fundada por romanos há cerca de dois mil anos, no encontro das águas do Reno com o rio Mosela. A grande atração é o teleférico que leva à fortaleza Ehrenbreitstein no cocuruto de um morro, a 118 metros acima do rio. Lá de cima, assiste-se, de camarote, ao vaivém dos transeuntes em Koblenz e ao tráfego de barcos em ambos os rios. 
A fortificação está voltada para o ocidente, de onde chagavam os inimigos. No caso, eram os franceses que invadiram a cidade em 1797, durante as guerras napoleônicas. Somente em 1815, com o Congresso de Viena, a fortificação foi devolvida ao governo da Prússia e o Kaiser Guilherme III levou a sério o desafio de torná-la a mais poderosa fortaleza já existente, terminando-a em 1832. Atrás das muralhas, há um hostel, dois restaurantes e o museu Landesmuseum, com uma exibição sobre a economia da região.
Exposições, aliás, não faltam na cidade, mas elas disputam atenção com as movimentadas margens do Reno e do Mosela, recheadas com cafés, restaurantes e jardins magníficos, muitas vezes repletos de flores púrpuras de lavandas, conforme a época do ano. Para aqueles que quiserem trocar a natureza pelas artes, o Museu Ludwig oferece quatro andares de arte contemporânea franco-alemã. A exibição está localizada em uma casa do século 12, da antiga ordem dos cavaleiros teutônicos, em frente a um grande gramado, onde os moradores se espalham para aproveitar a tarde. 
No centro da cidade, um pouco distante dos encantos bucólicos do Reno, está o Fórum Confluentes, espaço moderníssimo de 1.700 metros quadrados onde arte e cultura se encontram no mesmo local. Nesse prédio de seis andares há restaurantes, o Museu do Vale Médio do Reno, a Biblioteca da cidade e a exposição megainterativa Romanticum, em que os visitantes fazem uma simulação de viagem pelo Reno em um barco a vapor.
É no centro de Koblenz, o lado urbano e moderno da cidade, que deixamos o  mundo bucólico dos castelos e lendas do Reno para trás. Mas pode estar certo de que a lembrança dos vilarejos medievais não se apagará tão facilmente da sua memória, assim como não se apagará jamais o sabor suave do vinho branco ou a imagem do rio seguindo seu curso em meio a montanhas e parreiras. Você pode ir embora e dar adeus ao Reno, mas ele, o Reno, nunca mas irá abandoná-lo. Vai acompanha-lo para sempre. 

Para ir mais Longe: De Koblenz a Colônia

O trecho de 60 km entre Koblenz e Colônia não é tão repleto de castelos e lendas. Mas ainda assim é recheado de atrações impressionantes. Quem tiver mais tempo (uma semana é suficiente) poderá fazer o roteiro completo. Saindo de Koblenz, programe-se para conhecer o Palácio Arenfels, próximo a Bad Hönningen; a cidade de Linz, com um centrinho típico alemão muito arrumadinho; e Bad Honnef, conhecida há séculos por suas termas e spas terapêuticos. 

Uma parada obrigatória é Königswinter, com suas encantadoras ruelas e casinhas enxaimel, onde está o imponente Drachenburg, o Castelo do Dragão, de 1884, erguido no alto da montanha, onde se chega em um trenzinho tão antigo quanto o próprio castelo. 
E o gran finale fica por conta de Colônia, com sua igreja gótica “Dom”, a maior catedral da Alemanha, que levou quase 300 anos para ser construída, e é linda por dentro e por fora. Isso sem contar os museus de Colônia, que são os melhores da região do Reno. É o caso do Ludwig, que abriga um dos mais significativos acervos de arte moderna e contemporânea; e do Wallraf Richartz/ Fundação Corbound, com a maior coleção de pinturas da Alemanha. 

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